As Indústrias Mato-grossenses, no olhar de Virgílio Corrêa Filho Aspectos Industriais em Mato Grosso – parte I

Informa que o início da produção açucareira data de 1727, conforme o cronista José Barbosa de Sá.

Por NEILA BARRETO 21/01/2020 - 15:56 hs

Virgílio Alves Corrêa Filho é um escritor mato-grossense famoso por sua literatura de tom voltado à natureza. Nasceu em Cuiabá-MT, aos 9 de janeiro de 1887. Seus primeiros estudos foram feitos em sua terra natal. O superior junto à Faculdade de Engenharia do Rio de Janeiro. Em Cuiabá ficou conhecido pela intensa produção de importantes ensaios sobre a história local (Jornal O Estado de Mato Grosso, 1957). Faleceu no Rio de Janeiro, em 11.09.1973.

Corrêa Filho, em sua obra “As Indústrias Mato-grossenses”, apresenta em três páginas inteiras, destacando as suas obras escritas   ao longo de sua existência até o ano de 1945. O texto baseia-se em inquietações a respeito de aspectos industriais, nos quais a interatividade se acrescenta para a produção dos diferentes ciclos econômicos, tais como açúcar, algodão, café, poaia e seringa. Lembra, também, das dificuldades que o autor teve nas publicações de suas produções históricas, igual aos tempos atuais. Deixou os seus agradecimentos e, inicia as suas quase 150 páginas nas informações sobre os aspectos das indústrias em Mato Grosso, a partir do ano de 1726.

Informa que o início da produção açucareira data de 1727, conforme o cronista José Barbosa de Sá. No entanto, questiona em sua narrativa a afirmação do cronista quando afirma ter a indústria açucareira iniciada em 1728, relacionando as plantas de canas em redutos próximos às tribos Guatós, Xacororés e outras.

Nomina como pioneiro no plantio da cana, o brigadeiro Antônio de Almeida Lara, que saiu a procura da planta equipado de duas canoas de guerra, algumas montarias com escravos, alguns homens brancos e boas armas. Ao final de dois meses conseguiram muitas canas, cujas peças o brigadeiro estocou para venda no ano seguinte.

No entanto, Almeida Lara não contava com os roubos, por parte de seus escravos, que as vendiam aos interessados. Com isso, apareceram as pequenas moendas e as destilarias formadas em tachos, dando início ao comércio das (águas-ardentes) de cana, cujo frasco era vendido a cinco e a seis oitavas de ouro, conforme relata Corrêa Filho.

Por outro lado, Virgílio chama a atenção para o relato feito por Barbosa de Sá, que esquecera de mencionar que: “os Guatós, moradores dos pantanais, tiveram a sua disposição o vasto celeiro dos arrozais nativos pelos quais introduziam as suas hábeis canoas, a qual atestavam de abundantes rações nutritivas, mas que também, colhessem cana de açúcar, de cujas roças fossem Almeida Lara para retirar mudas em 1728, o que não é fácil de acreditar”.

Nesse sentido, Corrêa Filho atenta aos leitores para a correção da data, afirmando ser o início da indústria açucareira em 1726, fundamentado no testamento verídico de João Antônio Cabral Camelo, cujas “Noticias Práticas das Minas do Cuiabá e Goiases”, no título de propriedade do sitio fundado pelo brigadeiro, na Chapada, que Rodrigo Cesar e Menezes, assinou, ainda em São Paulo, aos 25 de janeiro de 1726, a favor do Tenente Coronel Antônio de Almeida Lara. Esse, o qual funda fazendas de roças, canaviais e criações na região da Chapada. Justifica, ainda, que João Antônio Cabral Camelo registra que: “quando eu cheguei ao Cuiabá, em 21 de novembro de 1727, havia um único engenho, distante de dez a doze léguas da Vila, no sitio chamado Chapada de propriedade de Almeida Lara”.

Em 1730, conforme Corrêa, a indústria açucareira era composta de cinco engenhos, todos localizados à margem do rio, uma vez que encontrou férteis solos cuiabanos.  

Virgílio Corrêa Filho denomina Antônio de Almeida Lara de “Pioneiro” na lavoura açucareira onde afazendou-se em Buriti nas circunjacências de Cuiabá. Sertanista, filho de João Raposo da Fonseca, capitão-mor e Regente, seguiu os passos do padrasto Sebastião Pinheiro. Em defesa de suas terras agiu com crueldade contra os índios Paiaguás que molestavam as monções, em 1731. De igual agiu contra os Guaicurus aliados dos Paiaguás, por meio de uma tranqueira de paus estacados, onde vestiu o cacique da tribo de camisa, vestido encarnado meias, sapatos e um frexado à cinta e mandou-o em busca de seus companheiros. O cacique foi e voltou acompanhado do seu povo. Adentrou a fazenda com alguns e o outros ficaram de fora montado em seus cavalos devidamente armados. 

O Brigadeiro Almeida Lara prendeu alguns guaicurus, cortou as orelhas e soltou-os para buscarem os seus exércitos. Corrêa Filho não menciona se os índios Guaicurus voltaram ou não.

Em seguida descreve que a colheita mineira que o salvou Lara, no caso as canas, diminuíram, o que o levou às portas da falência. Porém, Lara, quando seguia viagem para Mato Grosso (Guaporé) seu cavalo tropeçou em um objeto rutilante. Eram pepitas de ouro, reunidas em um opulento caldeirão, com que Lara evitou a falência. Voltou abastado e tornou o seu sitio em lugar de passeios e caçadas das principais autoridades cuiabanas.

No planalto prosperou as lavouras, inclusive, de cana de açúcar, trazida de São Paulo, as quais alastraram de Buriti para as circunjacências, tanto Serra Acima, como pelas margens do Rio Cuiabá, chegando até as terras espanholas. Nesses locais desenvolveram fábricas de açúcar e escolheu o planalto para a montagem dos melhores engenhos próximos aos caminhos terrestres, rota dos tropeiros a serviço do comércio local.

Assim, desenvolveram as maiores fábricas de açúcar, enquanto estacionava a plantação na baixada, que progressivamente deixaria de ser transitada pelas canoas viageiras ameaçadas de assaltos pelos Paiaguás, assim que entravam em águas paraguaias, do São Lourenço ao Taquari. A dificuldade de transporte pela encosta acima, em cotejo com a suavidade esplendida da via fluvial, compensava pelo aproveitamento dos numerosos ribeirões, cujos saltos constituíam o manancial mais útil e econômico de energia abundante, desconhecida dos concorrentes, relata Corrêa Filho.

Mais tarde apareceram nas fábricas de açúcar as rodas hidráulicas, arrumadas de madeira que auxiliavam as moagens e outras operações, na época anterior a navegação direta ao litoral por meio da via platina, mas tarde caminho das primeiras máquinas a vapor, a que se deveu a baixada o seu triunfo.  

Em 1775 a indústria açucareira iniciada por Almeida Lara achava-se quase extinta em função dos pesados tributos e impostos sobre os engenhos.

Em meados do século XVIII, Gonçalves da Fonseca, explorador português, escreveu em “Noticia de Mato Grosso e Cuiabá” que na Vila em seu distrito havia dezesseis engenhos de fabricar aguardente de cana, cujo trabalho reunia três mil escravos de Guiné.  

Após quatro décadas o naturalista baiano Alexandre Rodrigues Ferreira anotava em seus rascunhos a existência de estabelecimentos agrícolas dedicados aos canaviais, sendo no distrito de Vila Bela: treze engenhos de aguardente, três engenhos de açúcar e rapaduras e no distrito de Cuiabá: vinte e quatro engenhos de aguardente e vinte e dois engenhos de açúcar e rapadura.

 

(*) NEILA BARRETO SOUZA BARRETO é jornalista, escritora, historiadora e Mestre em História e escreve às sextas-feiras para HiperNotíciasE-mail: neila.barreto@hotmail.com